Pular para o conteúdo principal

30days: 10. Volta logo



Olá, querido
Resolvi te escrever essa carta um pouco tarde. Ainda estamos em maio e só me recordo de tudo o que nos ocorreu. Sim, eu sei, não deveria estar te escrevendo e relembrando tudo que decidimos deixar no passado. Mas eu não resisti. Eu não resisti quando liguei o som e tocou a nossa música, quando me peguei imaginando dançando contigo na nossa antiga sala, contando as estrelas do céu, te abraçando com os meus olhos fechados e apenas trocando nosso amor. Aquele nosso jeito de nos olharmos antes do beijo e da vontade infinita de dançar contigo até a música acabar. Antes de escrever qualquer linha a mais, eu peço desculpas de não ter aceitado aquela proposta de vigiar o mundo contigo e de ter pensado errado num momento tão decisivo. É que as coisas estão nas nossas mãos por um momento e num segundo elas somem. Existe uma explicação entre o certo e o que se perdeu e é essa a palavra que sempre me some. Não acho que fora covardia minha nem medo. Parece que eu não quis arriscar num futuro tão incerto. Apesar de você ser tão certo pra mim. 

Neste momento você deve estar aproveitando ao máximo essas férias antecipadas de maio e eu estou aqui, estou cercada de trabalhos a serem feitos e deitada nessa sala tão fria que antes tinha você/ me sinto tão sozinha. Olha, não é carência nem voltando atrás. Me sinto sozinha, mas estou construindo meus sonhos. Eu só queria que estivéssemos fazendo isso juntos, sabe? Eu e você mais um futuro tão feliz. Também estou escrevendo essa carta para você ter a certeza que alguém te ama. Mesmo você estando no outro lado mundo, eu continuo no mesmo lugar te amando. Sinto falta de cheirar suas roupas e senti o teu cheiro nelas. Nem o teu perfume fica mais em mim. As fotos sumiram, os cds estão arranhados, nossos sonhos  parecem que foram esquecidos. Onde está você agora?

Você não viu, mas entre essa pergunta e essa frase aqui sendo escrita ocorreu um breve espaço de tempo de silêncio. Você está sendo como aquele meu livro preferido. Estou te encontrando em cada frase, estrofe e texto. Sentindo você escrevendo comigo cada palavra. Como se estivéssemos compartilhando essa dor da distância e que algum dia poderíamos nos ver. Estou te escrevendo porque ainda te amo (não se deixa de gostar tão rápido) e isso está me matando por dentro. Eu não imaginava que o amor também poderia causar isso. Acho que o amor é primo da saudade, ou irmão. Eles brigam aqui dentro de mim, mas não se largam. 

Eu não sei mais o que escrever. Apenas quero que você tenha cuidado. Tenha cuidado em todos os lugares que você chegar. Estou guardando todos os seus postais e tentando entender as frases que você me manda. Você me faz uma falta danada. Eu poderia te responder apenas em postais ou seguir sua maneira, mas estou aqui nessa carta. A nossa música já acabou e está tocando outra. Aqui está chovendo. Estou com aquele pijama velhinho que você tanto odeia. Acabei com os pãezinhos de queijo da padaria. É, ainda estou aqui e no mesmo lugar. Eu decidi estar aqui porque eu quis, eu optei ficar e você decidiu ir. Mas os sentimentos continuam os mesmo. Estou me perdendo nessa carta, percebe? Não te escrevi antes porque... Bem, porque eu simplesmente não sabia o que escrever. Ou tinha vergonha.

Escrevi isso tudo para apenas te dizer que ainda te amo e  não vejo a hora de você voltar pra casa. Porque eu sei que ainda a gente se ama, senão, eu não teria recebido aquele postal com esse trecho "have I found you" a música que tocou quando a gente se beijou. É, claro que eu lembro.

Volta logo,
sua.
30 dias de escrita, dia 10 (Escreva uma carta)


Comentários

  1. Antes eu era assim, de ficar recordando dos fatos passados e me martirizando com a ilusão de que um dia eu iria viver tudo de novo. Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quem nunca? A diferença é que a moça não tava se martirizando sozinha. Eles ainda se gostavam. (':

      Excluir
  2. Nossa, quase chorei. Texto maravilhoso
    Beijos, http://derepentedezessete.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Que texto lindo! Parabéns, eu adorei. E tem Flightless Bird, American Mouth no começo do post! Amo de paixão essa música. Perguntinha: você gosta de Crepúsculo? Porque esse música faz parte da trilha sonora de Crepúsculo e Amanhecer pat.1.

    Beijos
    Uma Perfeita Complicada

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Daphne!
      Hahaha Tenho nada contra Crepúsculo, já assisti o primeiro filme, mas não coloquei por causa disso não. É porque achei a melodia da música apropriada para o texto ^^

      Beijos, moça!

      Excluir
  4. Remoer só se for coisa boa. Eternizar na memória lembranças felizes... Adorei o texto, Arih! <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oun, muito obrigada pela sua participação, Lara! <3

      Excluir

Postar um comentário

Comente, opine, critique.

Postagens mais visitadas deste blog

As minhas aventuras com Eduardo Galeano l Resenha #01

Memorizar datas sempre é uma tarefa difícil para mim, por isso que eu não quero arriscar uma data específica do dia que conheci, de fato, o escritor Eduardo Galeano. Chuto dizer que o conheci em meados de 2010, e o lugar do encontro não poderia ter sido melhor: numa biblioteca pública do estado de Pernambuco, localizada no centro da cidade do Recife. Foi através de um amigo que pude conhecer Galeano e os seus infinitos abraços através de grandes histórias.   Uruguaio, Eduardo Galeano (1940-2015) traz em seus textos uma mistura de inquietações que nos são poeticamente compartilhadas. A beleza, a emoção e o sofrimento sendo descritas em poucas linhas e que nos transbordam com reflexões. A minha primeira leitura de Galeano foi “O Livro dos Abraços”, da editora L&PM, com tradução do Eric Nepomuceno. E, segundo o tradutor, Galeano foi o único escritor a revisar com ele todas as linhas das obras traduzidas antes de serem oficialmente publicadas no Brasil. Isso mostra o ca...

30days: 6. Uma frase

Você me causa terrorismo em meu ambiente de paz. 30 dias de escrita, dia 6 (Escreva algo que envolva terror). Arianne Barromeü

Epifania

Essa foi uma das minhas metamorfoses mais intensas. Estava sufocada em meu próprio casulo e a fechadura estava por dentro. Ninguém, além de mim mesma, poderia me salvar do meu próprio sufoco e da falta de ar. Quando o sentimento de vazio te drena por inteira e não consegues pensar mais em nada. Você quer chorar. Sim, você quer chorar, mas você não consegue e a explicação é tão ilógica que você não quer mais pensar tanto sobre isso, apenas quer sentir novamente a sensação da sua neutralidade sobre o mundo.  Meus olhos estavam fadigados e demonstrariam rendição a qualquer momento, mas algo ainda me mantinha aqui e naquela hora eu não conseguia pensar nessa sutileza em que eu estava. Imaginei qualquer outra pessoa com liberdade e que poderia correr, gritar, chorar na hora que bem entendesse. Então, conclui, com as peças erradas, que tudo aquilo estava fora do lugar pelas minhas escolhas, atitudes e reações a diversas coisas que me transbordavam tristezas. Pude sentir ...