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10 de março de 2011

A porta de Ester



A tal da madrugada pode-nos trazer muitas surpresas...

Casado. Em seus olhos sentia o sofrimento da noite mal dormida, nunca o tivera visto, provavelmente era um iniciante que tinha a péssima escolha de começar com um bar vagabundo local. Quando quiser esconder-se do mundo, a primeira regra é não ir até a porta dele, acho que ele ainda não conhecia essa regra. As prostitutas sempre estão em alerta, às vezes fico impressionado com suas artimanhas. Um dia, uma dessa vida chamada Ester, me ofereceu o serviço completo pela metade do preço que era exigido por muitas ali, eu era novo cheio de vida, já deve imaginar minha resposta. Imaginei cada brincadeira que poderíamos fazer, mas ainda guardo comigo a frase dum homem, cujo nome desconheço e com ela aquela noite não existiu. Mas, isto é outra estória, hoje, aquele homem anônimo não está mais naquele bar e acredito que seus olhos estão voltados a mim. Digo, estou no lugar daquele homem e observo os iniciantes como ele observava. Ainda observava aquela alma maldita e aquela mulher ainda a insistir no acto. Pela minha experiência acreditaria que aquele homem havia sido cornado, e a coisa tinha sido séria. Talvez com o vizinho? Não não não, tantas bebidas assim, botões desatados e aquele olhar desesperançoso e perdido que ele trazia, era ainda mais pesado.
Seu melhor amigo, ou algumas mentiras de mulher. É colega, trabalho demais dá nisso.

- Um uísque. Dessa vez sem gelo, Copp. E, enquanto a garganta ardia com a bebida e acendia um cigarro para tragar. Eis que a ousadia daquela mulher me espantou. Aquele bar apenas trazia homens, bebidas e transas baratas.
- Por cinqüenta talvez... Seremos modestos. – ela insinuava.
- Deixe-me em paz! – e ele trazia outra vez a bebida para sua boca.
- Está pensando na sua mulher? Venha comigo, meus dedos não precisam de anéis...
Ele tentava ignora-la, mas até para um homem com seus princípios negar uma mulher daquela formosura era um tormento. Poderia ir com ela e descontar por uma noite todo aquele sofrimento, que eu sei, que o seu coração carregava. Seu pensamento está no questionamento da traição da sua esposa, sim eu sei. Aquela dor moída e que não poderia ser compartilhada com qualquer um. Ainda fumava meu cigarro. Ele se levantou. Pensei por um momento que ele a acompanharia, mas foi pagar sua conta. Ela o esperou. Por todo tempo o homem fingia-se distraído, mas ouvia o que ela dizia. Não só ouvia, ele meditava nas suas palavras. Ele foi embora. Ainda lembro daquele homem anônimo, não daquele, mas aquele que desvirtuou minha primeira noite com alguma prostituta dali. “Quando quiser esconder-se do mundo, a primeira regra é não ir até a porta dele” Realmente não conhecia aquela regra, mas foi nela a qual meditei a cada astúcia de Ester. Ainda lembro do seu corpo moreno e sensual, com uma curta saia preta – apenas parecia de couro – com suas couxas tão atrativas cobertas de um óleo cujo aroma ainda não decifrei. Cabelos soltos, tão ousados quanto à dona deles. E mais uma tragada.
- Porque eu sou uma cigana, você quer vir comigo? – depois de tantos anos ela ainda insistia.
- Ciganas dançam no banheiro?
- Talvez eu possa mostrar a você como elas dançam... – ela sussurrou no meu ouvido e tomei mais um gole. A primeira regra é não ir até a porta do mundo, mas quando ficamos atrás da porta? Naquela noite eu fui com a Ester. O anel ainda estava no meu dedo, ela já tinha tirado o dela há muito tempo. Ela tinha decidido ser do mundo, e eu... Bem, eu tinha decidido ser a porta do mundo de Ester.




Espero que vocês entendam que é quem aí dos personagens. É meio que uma sondagem... E esse texto possui algumas palavras que é bem distinta do que o blog sempre posta por aqui, mas este não é meu pensamento e sim o daquele homem. E este texto pode ser um pouco confuso e você pensar de primeira: Que conto mais sem noção. Mas, acredite... Este conto não pode ser tão fictício assim.

*Para edições do projeto Bloínquês.