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7 de dezembro de 2010

As parceiras.



Tudo acidente ou predestinação? Raízes de Catarina Von Sassen, ou acaso da vida? Imaginei algumas vezes que Tiago poderia telefonar, mas, pensando bem - para quê? O amor morto, o coração encolhido, o sexo melancólico. Tudo diminuiu até virar uma casca ressequida. Acabou-se. antes que eu adormeça cai a tempestade que se preparava. Bernardo anda não voltou. onde andará nessa chuva? Deixo a porta só encostada, quando ele vier pode entrar, na certa vai sujar tudo, deve estar enlameado e cheio de carrapichos.

Quando fecho uma veneziana que batia aflita, um vulto passa correndo, meio agachado. 
Na ventania, braços erguidos protegendo a cara. Uma mulher, vestido branco tatalando, cabeleira desgrenhada. A doida da minha veranista deve ter estado no morro espiando a chegada do temporal, agora desce nessa corrida louca, perseguida pelos raios.  depois me deito no abrigo dos lençóis, só as tábuas rangem, a chuva e o mar têm vozes_faxnilires. Se a gente pudesse calar o pensamento, a voz do sótão.

Às vezes os lugares esquecidos da vida são os mais importantes para os mesmo. Marina naquela manhã decidiu retornar ao local da morte de sua melhor amiga, onde seus familiares fantasiaram uma estória para sua morte. Ela era apenas uma criança, porém, hoje ela era uma mulher. Bonita. Casada. E tinha sido feliz, hoje as coisas andavam muito monótonas e repetitivas.Naquele topo onde poderia se vê o mar perfeitamente...

Chego ao topo, vou até à beirada onde Adélia, minha eterna amiga mostrava sua coragem, de repente fico corajosa também. Nenhuma vertigem. Pode ser uma libertação isso, tudo agora ser indiferente. A pedra está morna e úmida. Cheiro forte de capim e maresia. Nada de Bernardo. E o quadrado de leivas amareladas foi um cemitério.  O mar que amei: fragmentos de pessoas, o último grito de Adélia afogado nas espumas. encolho as pernas, abraço os joelhos, encosto a cara no brim áspero da calça. Sei que Otávio está pensando em mim agora mesmo: os pensamentos se encontram, se tocam, se beijam. Uma paixão sem sexo, sem sentido.

Sem vida.  Fecho os olhos: quando vou conseguir fechar assim o coração? Me encerrar em mim, como outros nas aparências, na loucura? Quem sabe faço do chalé o meu sótão. Uma doida a mais não pesa nessa família. Fico morando aí com Bernardo, ele volta logo. Nazaré vai precisar de trabalho, tem filhos para criar. Nas paredes, vou pendurar uns esboços daquele anjos de tia Dora,
guardei alguns, são lindos. Perfeitos. Minha tia pinta monstros depois de desenhar anjos. Mas todo mundo compra as telas, põe na parede, olha: tão verdadeiros, os crânios calvos, as caras descosidas.  - família de perdedoras, tiazinha. Uma sombra escurece o castanho do fundo das pálpebras. 

Levanto a cabeça e quase perco o equilíbrio nessa posição precária.  Bem junto de mim, uma mulher. Tem o rosto na sombra, o sol às costas, a cabeleira parece uma auréola. A minha veranista. Companheira de solidão, até que enfim. Quero me levantar, dar a mão, ser gentil, quando tudo me era tão indiferente, essa mulher me deixa curiosa, ansiosa, quase feliz porque tenho alguém comigo, agora que até Bernardo sumiu. uma rajada mais forte ergue suas roupas, que roçam em mim. Alfazema! De repente, sei quem é. Não entendo como não a reconheci antes. Então era por mim que ela estava esperando, todo esse tempo. Esse longo tempo.  Descemos de mãos dadas.