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15 de agosto de 2013

Isabelli


Cometi dois grandes erros quando conheci Isabelli. Me apaixonei pela sua resposta rápida, seu senso crítico, sua provável independência misturada pela sua beleza natural que me fazia questionar se ela era real ou não. Aqueles cachos que me rendiam um cheiro de casa arrumada e sexo em qualquer hora do dia. Aqueles seus lábios, não tão moldados, mas que me prendiam ao êxtase ao pegá-la mordendo o seu lábio inferior após ouvir uma pergunta chata ao nível do chefe do trabalho. É, Isabelli me rendeu esse primeiro grave erro. O erro dos meus olhos se renderem, da minha vontade aumentar, do meu corpo suar.  O segundo erro foi não considerar sua desculpa esfarrapa de sair mais cedo do barzinho por conta da saúde de sua mãe. Descobri mais tarde que ela mora sozinha e que tinha medo de sair à noite.

Isabelli tão erótica me fazia gozar por dentro com o seu andar de uma inocência fingida e com um salto alto de uma mulher. Parecia estar à espera do seu homem ou do homem que correspondesse aos seus olhos com puro fogo dentro de um quartinho de quinta-categoria ou daqueles banheiros sujos de restaurantes assistidos em filmes - essa última cena sempre me vinha à cabeça quando ela pedia licença para ir ao banheiro e demorava uns quinze minutos e vinte segundos para voltar. Sim, teve uma noite que eu fiz questão de contar - aqueles minutos me levavam ao delírio porque eram os minutos suficientes para uma boa trepada. 

Mas ao observar melhor Isabelli, notei que eu gostava daquele seu batom vermelho em seus lábios não tão bonitos e do sinal em suas costas. O corpo de Isabelli, na verdade, o seu formato, era tão bem desenhado que minhas mãos poderiam mergulhar em suas curvas e me perder entre elas sem nenhum rancor. Meus pensamentos se estendiam porque Isabelli atendia os telefonemas aos sussurros e saia com pressa para um canto mais reservado. Fiquei sabendo que ela gostava de rosas vermelhas com um bilhetinho secreto para ficar se gabando no outro dia nos corredores do trabalho. Escolhi as melhores rosas e o melhor bilhete. Não queria mais fantasiar como Isabelli beijava, gemia ou trepava numa cama. Recebeu as  flores com o maior sorriso do mundo e sua amiga sussurrou que aquele cara do bilhete só queria sexo. Bem, ela respondeu que isso poderia ser uma boa ideia. 

Contudo, meus amigos, Isabelli não parava de esconder seu sorriso frouxo dentro do carro e nem parava de olhar ao retrovisor para poder olhar pra mim também. Um olhar de carinho com mistura de sacanagem. Mas, dentro do quarto, ela foi fazendo charminho e ficou meio perdida ao tirar as primeiras peças de roupa. Aquele quarto de motel mediano que nem era uma ou cinco estrelas, mas que cabiam nós dois no meio daquela cama bagunçada e um cheiro leviano de sexo. Sem janelas, sem ventilador. Apenas nossas roupas jogadas ao chão e um livro de Bukowski aberto ao lado de sua bolsa largada por ali. Calma, eu falei. Mas ela abria um sorrisinho e pedia para continuar. Depois de uns minutos descobri a verdade: Complexo de pinto. Escondia o rosto quando me via nu e senti no ar aquele sorrisinho falso querendo encobrir a vergonha do não sei o quê. Transar era no escuro. Não queria ver o que acontecia. Estava disposta, mas apenas de olhos fechados e só na posição tradicional. Aquela não era a Isabelli que me dava tesão. Fui tentando relembrar da Isabelli sensual, erótica, mulher. Dentro de uma noite e outra.

Mas não adiantou. Isabelli também tinha um sorriso que me dava paz, um perfume que me levava para uma varanda com rede e os seus cabelos encaracolados me levavam ao paraíso só em deitar minha cabeça sobre eles. Depois de um sexo estranho, perturbador e, incrivelmente,  gostoso, ela se deitava de uma maneira espetacular sobre mim e dava para admirar aquele sinal em suas costas. Uma cena que merecia uma recordação: aquele seu suor e a boca entre-aberta, o seu perfume que ainda perdurava entre algumas horas. Isabelli não era uma fera na cama nem um anjinho também, mas me fazia pensar sobre a vida e de como era bom ter um momento sossegado em um quarto limpinho de uma mulher ainda não tão resolvida. 


Essa é a minha Isabelli. 



Nota: Esse texto iria participar do concurso para selecionar colunistas para o blog do Daniel, do Entre todas as coisas; mas como ele não me respondeu ao email, nem para dizer se leu ou não, decidi postar aqui e saber as opiniões de todos vocês.
@ariannebarromeu