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17 de dezembro de 2010

Destino monótono


– Esse dia vai ser como o de ontem – abriu um sorriso conformado.
Andou até a frente ao espelho oval e ele revelava uma linda mulher escondida com maquiagens pesadas. Sua mão deslizou seus sedosos cabelos negros para trás e seus olhos estudaram suas vestes para sua forma mais casual, não queria parecer o que realmente era: com um pequeno vestido vermelho com um chamativo e avassalador decote que valorizava de tal forma os seus seios. Esse vestido era formoso, não era vulgar, seu tecido parecia ou era seda. Suas pernas se estendiam com um aroma de óleo de uva. Estavam atraentes, mesmo não sendo maravilhada com belas pernas – elas estavam, devidamente, atraentes. Com um salto alto e novamente com uma maquiagem pesada, ela se retirou do seu quarto.
– Ah, o perfume. – o dia não foi totalmente como ontem – se perfumou. Agora voltou a caminhar para o seu destino monótono.
Desceu as escadas do seu prédio, não suportava elevadores, mas desceu com elegância. Seu olhar para cada parte da parede ou para algum vegetal, era com sedução. Demonstrava estar sendo filmada e cada detalhe era de mais extrema beleza. O porteiro a olhou, ela não percebeu. E como câmera lenta, forçou com sua mão a porta para sair. Mal respirou e voltou a caminhar – os olhares eram inevitáveis – como todos os dias – pensava. As ruas da cidade estavam agitadas e inúmeras vozes eram mal interpretadas – veículos ferozes motoristas estressados e mães preocupadas com seus filhos nas ruas. Observa atentamente tudo aquilo. Becos onde humanos viviam – ou pensavam que viviam – crianças com fome e intercedendo por alguma comida. – É esse dia vai ser como o de ontem, não tem escapatória – entrou num desses becos. Abriu uma porta enferrujada. E o seu mundo parou – não sabia o porquê, mas pensou em tudo que tinha feito naquele ano. A mesma coisa de sempre, os mesmo erros e as mesmas perspectivas.
Ela tinha um bom emprego, mas aquilo não era uma carreira. E quando sua mente calculava todo esse fator do seu humano, ela começava a chorar. Não chorar por tristeza – isso já passou há muito tempo – chorar por não ter mais força para lutar. “Vamos, Vic” – ordenou uma voz ao fundo e a moça voltou ao seu mundo real. Ela tentou caminhar para o seu “escritório”. E quando abriu a porta, viu um sorriso se abrir para ela. Fazia tempo que não presenciava um sorriso daqueles. “Tenho especificamente uma hora com você e quero nessa hora te fazer a mulher mais desejada no mundo” se apresentou o homem. Ela nada falou. Isso para ela já não fazia mais nenhum sentido – apesar de quê seu coração gostou daquilo. Começou a despir-se. Seu corpo era completamente atraente. Ele hipnotizou-se. Ela não entendia, mas não demonstrava. Foi até a ele e o sorriso bobo ainda estava em seu rosto.
– É esse dia vai ser como o de ontem – pensou. Ela pensa "como vim parar aqui" - "Estou fazendo tudo que posso". Ela cai ao lado dele. Ele novamente sorri. “Obrigado... Queria te falar mais uma coisa” – na verdade ele falou algumas coisas no seu ouvido, mas ela não se importava mais.
E pela primeira vez naquela hora ele saiu triste. Seu expediente acabou e o dia estava chuvoso. Ela tenta voltar para casa. E novamente como uma câmera lenta, ela abre a porta principal do seu prédio e caminha cansada em direção as escadas. Ele olha para ela, mas ela não percebe. E ao tentar abrir a porta, ela ver uma carta. “Queria te falar que esse dia não foi como o de ontem, queria te falar que toquei o seu corpo com a mais humilde e ternura possível. Queria te falar que você não percebeu isso”. Então ela chora. Ela chora por que conseguiu mudar o dia de alguém, mas ninguém conseguiu mudar completamente o dela.