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31 de dezembro de 2010

A melodia


Era uma melodia de uma bailarina. Mas ela não era uma.

Ouvia um som musical quando era garotinha. Nunca soube em qual direção chegaria ao seu encontro. Fascinava-me por completo e apesar de não escuta-lo com os olhos, eles brilhavam parecendo entendê-los. Parecia uma mistura acústica de notas de piano com notas de violino. Era deslumbrante. Olhava para o céu imenso com sua cor azul única e o sol mergulhava em minha pele pelo me corpo. O som parava e eu como uma boba ainda imaginava ouvi-lo. No entanto, à medida que eu iria crescendo o som que raramente ouvia já dava sinais de desaparecimento. Isso me incomodou por um curto e certo tempo, depois eu mesma não percebi que isso já não me importava mais. Acho que é um dos deslizes da saída da infância, você deixa coisas pequenas de lado e tenta entrar de cabeça em coisas fúteis. Não me lembrava mais da melodia. O lapso momentâneo teria se tornado, em meu cefálico, um fato mitológico.  O engraçado era que sempre era apenas uma parte... A metade, um terço. Nunca a ouvia do início, nunca ouvia o seu final. Era uma melodia inacabada. Estava retornando estes meus pensamentos quando percebi o mergulho deja vù do sol, novamente, em minha pele. Ah, era o mesmo daquele dia. Uma brisa calorosa e acolhedora, que me tomava por completo. Estas memórias me cercavam na saída do meu trabalho. Isto foi injusto, estava cansada demais para dá atenção a esta epifânica. O sol continuava a me cercar. Eu continuava a andar. E tentava transparecer as idéias nos seus eixos corretos. Então minha mente parou e apenas escutei o som.

Hoje uma mulher iria chegar cinco minutos atrasada em seu trabalho, cansada, sua mente estava atormentada com as brigas com o marido. O filho ligava, e incompreensivo, pedia sua busca na escola. Ela o pegara e levara para casa, o relógio já batera 10h05 o seu trabalho era às 10h00. Ela correu no carro. Seu celular novamente tocava, era o seu marido: - Quero o divórcio. Entrara em choque e desviava o seu carro de um gato e pelo seu atraso corria ainda mais, agora abalada, ela não a viu. Mas a moça do som saíra do trabalho no horário correto e ouviu a buzina, talvez seja o som.

Agora novamente ouço o mesmo som; não sabia que o escutaria neste momento. Talvez seja por que eu tenha encontrado a porta de sua entrada. Mais forte. O som tornou-se mais forte. É inacreditável a continuação de sua suava melodia. Eu sorri. A música realmente é linda... Como pude ignorá-la por tantos anos? Arrependo-me. Cessou. Parou. Expirou.