}

26 de dezembro de 2010

Rapunzel



  Fragmentos distorcidos invadem aceleradamente minha consciência. Não tenho mais o domínio do meu próprio corpo. A insegurança faz-se matriz e o desespero incessante me cerca violentamente. Tento escondei-me e apoiar-me em algum fragmento concreto, mas a ânsia me toma e desesperadamente formulo as cordas vocais necessárias para um grito. Ela ainda não me satisfaz, prendo com os meus dedos os fios avermelhados do meu cabelo e tento arrancá-los como uma saída da compreensão do meu ego. Levanto-me e caminho naquele quarto limitado. Agora aquela maldita torre é o meu casulo de vida. Minha respiração torna-se ofegante ao relembrar quem me levara até ali. Pessoas que carregam dentro de si sangues idênticos – deveriam tentar em suma sua auto-proteção. Mas não importa, as cicatrizes deixadas para trás irão lembrar que minha existência foi real. Não será uma torre semelhante à de Babel que me condenará a uma espécie de presídio infortúnio para minha eternidade. Pois, ajunto-me a mim e não ao pobre do mundo.

    Poucos sabem a definição correta das goécias existentes neste mundo, alguns acusam seus praticantes de pessoas demoníacas que fazem pacto com Lúcifer. Mas é a própria pessoa que decide a quem seguir. Não quero limitar meus passos apenas por seres divinos que pateticamente irá me assegurar neste mundo, ele próprio está me matando e nada vejo do além a me socorrer. Vejo essa matriz de ilusões e difamações dos inimigos da magia e do progresso individual. É reconhecido como um meio de se alterar as nossas Sombras interiores a favor do progresso. Sim, o meu progresso. Tentei incansavelmente a beleza eterna. Talvez os corpos jovens escolhidos fossem os errados, algumas não demonstravam tanta beleza assim. Infelizmente todas possuíam a mesma cor de sangue, isso me enjoava – nem a mais bela moça mostrara sua diferença entre as outras internamente? Meu irmão Mathias II prendeu-me nesta torre como parte de uma condenação que a minha pessoa cometera. Extrair cuidadosamente o sangue humano para minha técnica rejuvenescedora, atraia os olhares invejosos.

    Sorriu debochadamente. Muitas acreditavam que iriam ser concubinas do meu querido irmão, ah, atrocidades. Elas seriam enfeites da minha técnica. Chamei dezenas... Centenas e nenhuma delas seriam as adequadas para o meu feitiço perfeito. Todas eram tolas, fracas e inconcebíveis ao meu desejo. Todas eram iguais externamente. Todas. E outra vez a torre fez-se vitima do seu grito desesperador. Exatamente todas. Matérias inúteis a nossa população, corpos que não trariam vencedores na guerra – ainda eram fracassos em meus projetos. Chamavam-as para o subterrâneo, suas peles alvas arrepiavam-se com o medo dos labirintos nocivos, algumas tentavam recuar – sem sucesso. Comandava os sacrifícios – gargalhadas – meus cabelos avermelhados demonstravam o que aconteceria com todos os seus corpos futuramente. Entupir-se-iam de sangue e gritariam por clemência para toda vida. – Morra – apenas falava para elas. Enquanto minhas vestes reais se estancavam com os seus sangues inúteis, esses aspectos traziam a tona, novamente, os fragmentos distorcidos e indecifráveis vinham a minha mente – Você fracassou você sempre erra, você é uma inútil. Rebatia violentamente estes pensamentos insanos. Eles não estão corretos, eu estou correta. Elas que seriam os corpos errôneos, matérias imprestáveis, rostos distintos.

 - Nãão! – gritava loucamente no seu casulo. Agachou-se no cato do seu quarto, suas mãos protegeram seus joelhos e ali ninaram com movimentos bruscos. Seus olhos pareciam desesperadamente buscar algo que ali não estava. E como consequência seu rosto suava por não encontrar mais o liquido vermelho que a saciava. Seu rosto tentava movimentar-se para observar ao seu redor, mas o peso que sua consciência possuía a impedia de qualquer milímetro de esquiva.

- Não posso libertá-la. Sua liberdade é privação de outras. Não posso prendê-la, por causa da nobreza. Deixá-la-ei naquela torre até sua morte. Talvez sua própria morte seja o corpo o qual ela tanto deseja.

   E, finalmente, seus olhos dilatados encontraram em suas mãos o sangue tão almejado para sua eterna juventude.



Ps: Conto baseado em ELIZABETH BATHORY. Época em que atuou: Entre 1600 e 1611, na Hungria
Quantos matou: Entre 40 e 600O que fez: A rainha das serial killers era uma condessa húngara muito louca. Interessada por magia negra, Elizabeth acreditava que conseguiria continuar jovem para sempre - desde que tomasse banho em sangue humano! Para o "tratamento rejuvenescedor", ela ordenava o rapto de garotas dos vilarejos próximos ao seu castelo. Depois, torturava, assassinava e usava o sangue das vítimas.