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4 de janeiro de 2011

A amante



            O calor dos dois corpos era transmitido por todo aquele quarto. Seus beijos fluíam teor de saudade e seus corpos um aroma indecifrável de desejo. Ela desejava questionar sobre a demora, ele desejava. A desejava. Era um ciclo sem fim, solitários, apreciavam o amor como nunca antes. Os cabelos negros da moça eram roçados entre os dedos do moço, as bocas que aos poucos se desencontravam, demonstrava em seus aspectos a cor roçada em seus lábios. As mãos pecadoras rastejavam como uma sábia serpente entre o inimigo e procurava usufruir de sua presa. Estavam completamente interligados em sensações já conhecidas, mas sempre se tornavam desconhecidas e surpreendentes – eles não paravam. Mas a hora da partida chegou ao rapaz, o rosto da jovem não escondeu amargura sobre isto – desculpou-se e se pôs a sair. Ela percorreu para sua janela e acenou sem alegria para ele – não obteve resposta – ela guardou aquela lembrança.
Pensou em como atraí-lo novamente para o seu ninho, queria-o como nunca antes. Desejaria o homem de sua vida ao seu lado e para isto não mediria esforços. Ousou em querer telefoná-lo, mas não saiu dos seus pensamentos. Lembrou-se de algo e percorreu para seu quarto – relembrou da primeira noite e sorriu – vestiu-se como nunca antes, na verdade como uma única vez. E aguardou seu presente no mesmo lugar da lembrança. Seus passos eram acompanhados de estratégias para trazê-lo pra si, sorriu algumas vezes, e olhava vagamente algumas delas. Entrou subitamente num beco da avenida da cidade, subiu as escadas como se já conhecesse o lugar. A janela estaria fechada – xingou-a, mas não descontraiu o seu foco. Trazê-lo pra si. Acharia outra entrada, desceu as escadas rapidamente e conseguiu.

         Estacou com violência a lembrança guardada para o rosto de uma mulher. Em sua face agora existia vestígios de sua coragem por um amor. A platéia imóvel não a aplaudia, irou-se, gritou-lhes, mas não deram ouvidos. Ela irradiou o lugar com seu ódio profano e destacou sua ira para estes pequenos seres. Sua mira perfeita estava concluída, mas sua mão fora interrompida, novamente irou-se e pôs a reivindicar a partida com a guia. Seus olhos sentiram temor no encontro dos outros olhos. Desejou amá-lo, ele desejou matá-la. As lágrimas vermelhas de uma mulher eram despojadas ao chão, imóvel ela não se importava com aquela cena. Em silêncio aquelas duas almas insanas se mantiam ali. Aos poucos os olhos curiosos da rua se acenderiam ali. Ela percorreu para sua janela e acenou sem alegria para ele – não obteve resposta – ela guardou aquela lembrança. Acendeu em si uma revolta e pegou a arma da verdade, encontrou a entrada do empecilho do amado e descartou a quem ele voltava todas as noites. Suas crianças não aceitavam a perda e sua ira se encherá pela saudade delas. Descarregou seu ódio para aquele que a impediu de matar a platéia, mas seus olhos tornaram-se temerosos.

              O seu amado a impediu de prosseguir para felicidade. Ele empurrou-a e seu corpo caiu sobre as lágrimas malditas da mulher. Suas mãos sentiram a amargura neutralizada naquele mar morto.  Seus olhos viram os olhos de alguém que decidira morrer. Os olhos da mulher decidiram morrer fechados e os dela estavam abertos. Um único tiro escutou-se. As crianças se calaram.

- Voltas hoje? – perguntou uma voz duma moça. – Eu não sei, mas sempre esperes por mim... Os empecilhos são grandes para o meu retorno. – respondeu-lhe. – Você a ama? – perguntou como um adeus ao vê-lo sair de seu ninho. – O que você acha? – seria uma pergunta retórica? Pensou – Se ela não existisse você nunca sairia daqui. Ele sorriu.