}

24 de janeiro de 2011

O cômodo


No teto o ventilador rodara com lentidão. O cômodo era fervessido pelas altas temperaturas corporais entrelaçadas em conjunto, o embale das mãos percorriam e em entorpecidos pelo aroma agravante – insuperável – ou estrondeante se extraiam apenas pela atenção dos olhares curiosos. Mas, curiosos não eram apresentados e nem configurados ao cenário dos amantes, o aconchego medíocre que o cômodo apresentara, assemelhava-se a um casulo onde apenas habitara pessoas, seres e substâncias. Eles eram as substâncias e os seres se caracterizavam em modalidades inanimadas – seus corpos fervessidos eram acomodados pela grande poltrona, à poltrona fechava suas pálpebras para não tornar-se atraída pelo foque imensurável deles.  Em um repentino olhar a mercê das janelas cobertas de água e umidade interna, a mulher levantou seus olhos apressados e desejara pronunciar um basta naquela cena estonteante, contudo seu corpo se veria ainda mais entregue após sentir aquela língua maldita vasculhar pelo seu corpo vulnerável àquele homem. As sensações nunca eram as mesmas, já conhecia àquele toque, àquele corpo, àqueles sussurros provocadores, mas as sensações nunca eram as mesmas. Ousou sinalizar com sua mão a parada obrigatória para a movimentação corriqueira, seus olhos não esconderam a surpresa daquele desaveio que sua companheira sinalizara. Pôs-se em pé e caminhou nu defronte a janela – lá fora a chuva caia sem cessar – o frio prazeroso o fez reacender o seu cigarro exposto ao cigarreiro que ainda possuía uma breve fumaça a soltar, a moça o observava ao relento, mas logo se pôs a levantar-se e novamente transformar-se em uma pacata cidadã. O olhar perdido e ao mesmo tempo fixo do homem para com a chuva resultaria a inquietação mental da mulher, o que ele estaria pensando? Pensou. Em passos delicados a mulher tentava se aproximar do seu homem, suas vestes ainda não cobriam perfeitamente seu corpo, ele ainda tragara seu fumo.

- Você sabe que estou em ambos os lados da cerca... – sussurrava E eu sei que você não acreditará em mim. Compreendes que não posso tomar minhas próprias decisões ou tomar qualquer uma com precisão... – não concluiu.
- Bem, talvez você deva amarrar-me. – olhou-a de relance.
- Prefiro brincar de liberdade com selvagens. – Eles sorriram.
Os músculos resistentes pareciam prendê-la entre a parede e corpo daquele homem, seus olhos cemi-cerrados não demonstravam nenhuma insatisfação em ser prendida por ele, talvez o inverso dos sentidos fosse prestigiado. E novamente a fraqueza carnal tomá-los-ia e as sensações já sentidas eram mais uma vez redescobertas.  Mãos brutas redescobriam aquele corpo maciço e ininterruptamente a fraqueza se faria entre eles. Então seus lábios desbotados e aparentemente destorcidos, sussurraram:
- Preciso ir... – tentou encontrar seus olhos.
- Eu sei... – fugia dos seus olhos.
- Bem, eu não me importo sobre o que pensam de mim... Importo-me em consegui o que queremos. – afastava-se dele e procurara suas vestes. Parecia que o encanto já haveria se expirado. Realmente existia encanto? Ou seria o canto desconhecido dos dois corpos?
- Será isso mesmo o que queremos? – tantas perguntas e incógnitas respostas.
- Será realmente esta a pergunta? – calaram-se.
Então os corpos estavam definitivamente desconectados, afastados, distantes. Seus olhares levavam a despedida dolorosa daquela tarde chuvosa ou simplesmente esta não seria a última despedida e sim o início de muitas. Ressaltada com a beleza e a expressão cordial que seus passos e sua postura ofuscara em sua presença; a mulher esconderia pra si todos aqueles momentos, esconderia e ao mesmo tempo gritaria ao mundo. 
  
Ela encontrou no carro.
- Para casa, por favor.
Os olhos do motorista a olharam pelo retrovisor. Àquele olhar, definitivamente, a destorcia de maldade.
[...]


Para os projetos: Bloínquês - 53ª edição musical
                          Créativité  - 06ª edição musical