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26 de janeiro de 2011

Sangue



 Exuberantes eram seus olhos fixos ao desconhecido que se prostrava ali, pensamentos insondáveis e incógnitos transformava-se em melancólicos gritos desesperadores a busca de uma retalia ou saída complexa. Seus lábios indefesos tremiam a busca do socorro puritano, aconchegavam como auxílio o medíocre riso maquiavélico e tortuoso aos seus ouvidos. Problemáticos seria a lembrança daquela tarde de inverno, onde o frio traiçoeiro e perturbador adaptava-se a lugares remotos e sensíveis da reação humana. Um grito, outro outro e outro, era constante na tarde do inferno, onde as temperaturas e reações corporais teriam complexos e mentalidades supostamente opostas. Exuberava-se com sua capacidade de extrair os movimentos hostis do corpo da morena; corpo formado de imensa beleza e expressado de tortuosa loucura. Por ventura, ela maltratará com tamanha frieza o seu espectador presente e constante em sua beleza. Olhava pra si e encontra vagões extensos de seu sangue dando sua glória e derrapando-se pelo chão. Olhos de medo falavam o medo dos lábios escondidos; observa aos poucos a desilusão contraditória e perspicaz tragada por ele. Lembrara de seus passos tranquilos e olhos surpresos pela formosura da moça do quarteirão, lembrara também como fora tragado pela sua beleza e determinado sua sentença para os dois caminhos da virtude: a luxúria e a gula. Sua luxúria em posse do corpo esbelte e traçado por lírias degustação carnal, levou-o a gula da posse. Lembrara dos passos certos de ter chegado ali. Agora, o fluxo do passado choca-se com a frieza do presente – ela já não era mais a moça gentil e caliente com corpo atrevido – agora o ameaçava com seus olhos doentios e pecaminosos sem nenhuma covardia. Corpo estraçalhado ou entregue e aberto a mais covardias sobre ações; cederia mais a cada momento que seus olhos perdiam o sentido de viver. Olhos negros evadiam o vácuo do sofrimento alheio do homem e pareciam tentar encontrar mais vidas salvas e minuciosamente mata-las. Debruçado, o nome nem sabia da morena, talvez seja ela o nome da sua morte. Caído ao chão, ainda via com seus olhos os poucos minutos prestigiados pela mãe vida, via-a pelo espelho. Tão bela. Tão atraente. Tão louca. E como os fatos pré-estradas-da-morte previam,  ele atentava esquecer os fatos acelerados que invadia a sua mente, tentara esquivar, tentara ter naquela tarde um pensamento só seu, um pensamento fluido só dele, mas a mulher não deixava. Ela estava lá, estava cá. Pensara em suas mãos alvas, por hora pensava na faca, e por vez nas mutilações que sugava cada pedacinho de sua vida. Por inúmeras vezes gritos de horrores e risos de onipotência. Ele estava caído, caído ele estava; seus olhos a viam e a ele ela ofuscara. E outra vez seus pares negros da íris o penetravam com sede de mais, talvez buscasse ainda forças do seu sofrimento. Virou-se. Olhou-o. Riu. Seguiu com seus passos e agachou-se perto dele. Trazia em seu rosto o sorriso do primeiro encontro, ela riu mais, levantou suas facas. Elas eram tão afiadas.

Então, era inverno.
Preencheu em seus lábios a beleza da vitória, eles agora estavam mais vivos, mais vermelhos, mais impactante para quando andasse na rua. Não sabia o porquê, mas seus passos estavam destorcidos, mais loucos, mais doentios. Seu equilíbrio estava abalado, suas vestes estavam ensangüentadas, os olhos mundanos agora a encaravam. Olhava para eles e desmanchava o enfeito doce. Olhava para suas mãos e vira o troféu, a lâmina da perdição. Mordia seus lábios e sentia a sensação eloquente do seu poder.