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10 de fevereiro de 2011

O bilhete










Atenção senhores passageiros, tenham todos uma ótima viagem” 


A previsão do tempo revelava que a madrugada seria chuvosa e com isso, consideravelmente preocupada, a senhora vestida de um linho elegante tentara, constantemente, manter-se lúcida às preocupações e anseios durante sua viagem. Decerto, o anseio que a consumia aumentara por sua solidão em seu assento. Seus olhos cansados procuravam algum refúgio em outros olhos, mas sua óptica apenas encontrara multidões desconcentradas e alheias, observando ao relento através da redonda janela. Lembrara por um vago instante o bilhete que encontrara da filha na estante da sala de jantar, uma breve despedida, uma despedida com uma dolorosa ida.
De explicações necessitara para viver, desejara está ciente dos motivos exatos da ida de sua filha. Não aceitara que a mesma, sua filha, recusasse ser sua semelhante. Por que apenas palavras escritas invés de um último abraço? Um grande quebra cabeça era atordoado em sua mente e peça importantes lhe faltara. Talvez sua sensibilidade estive aumentando com o avanço de sua idade, talvez precisasse palavras diretas para abrir seus olhos à realidade. Ainda repousava em seu assento. Ainda buscara olhares, no entanto, acho-os. Os olhos da aeromoça rondavam pelo corredor à medida que andara no centro da passagem. Atreveu a pronunciar um pedido, a aeromoça assentiu. Seus olhos pareciam mais nervosos; suas mãos sofriam de hiperhidrose palmar – excesso de suor nas mãos; e sua boca seca a desconcentrava ainda mais. Olhou para os lados e agora via rostos, mas eram rostos diferentes. Na verdade ela se vira neles. Deveras o medo tomou-a. Gritou com um grande desespero, não aceitara ser semelhante às demais. 

Objetivo. Vicio. Ela era apenas uma só. Gritava com desprezo para as outras. Suas semelhanças para com elas eram tremendas. Distorcia cada vez mais sua voz, não suportava que mãos iguais as suas ordenassem seu equilíbrio emocional. Algumas delas riam, algumas delas choravam – essas ainda eram de colo. Odiava tudo aquilo, odiava ser odiada por si. Correu pelo corredor a procura de uma saída do tormento e, sem perceber, um bilhete amassado cairia do seu bolso – aconchegou-se entre as últimas cadeiras, encolheu suas pernas e trouxe seus joelhos perto da face. Lágrimas caíram do seu rosto e viu pela prateleira de prata um rosto mais jovem. Sentiu seus cabelos caírem macios sobre os seus ombros e sua pele retroceder ao tempo. Sorriu. Ergueu-se e um pouco de sensualidade demonstrara ao passar suas mãos por dentro do seu corpo -  “senhores passageiros, tenham todos calma, a senhora da cadeira seiscentos e sessenta e seis tem um pequeno problema psicológico”  - em suas mãos agora possuíam facas. Abaixou um pouco seu rosto e sorriu. “Sempre lembrem que eu sou a verdadeira.Correu e como uma câmera lenta acertou aqueles rostos clonados, falsos e inúteis em sua percepção. Sua sensibilidade de audição aumentara quando escutara seu choro infantilizado ao longe. Tentou calá-la, mas inúmeras mãos a seguravam pelos pés, aquelas eram suas mãos.

Percebeu que pessoas choravam, não acreditava que essas pessoas teriam realmente uma auto-estima considerável para agüentar a Califórnia, pessoas essas que seriam ela. Lembrou da filha e não aguardou o grito histérico que a sufocava. Lançou as facas sem preocupações, uma delas acertara a poltrona de uma mãe chorando sobre perigo que filho ocorrera e a outra estancara entre olhos curiosos de uma mulher ao ler o bilhete perdido. Andou em passos desconcertantes pelo corredor, viu a aeromoça e apontou para mãe desamparada, continuou a andar e ouviu sua voz ao fundo chamar aos sussurros um reforço na descida. Encostou-se e decaiu ao chão. Não saberia que o microfone cairia consigo. “Calem a boca, já chamei a aeromoça, que tentou acalmar a senhora”  Todos ouviram. Percebera que sua voz já não era mais jovem. E o bilhete que caíra das mãos da pobre mulher atingida por uma das facas, confessava o tormento: “Mãe, não somos iguais. Eu sou única e verdadeira, só eu posso ser eu.” Estava naquele avião em busca de uma resposta para com a filha, desejara muito avisá-la que ela, sim,  seria a verdadeira.

* Eu sei que está meio longo, mas peço para aqueles que lerem: divulguem suas criticas. E, sim, não gostei muito dele.
*Algumas frases em itálico foram retiradas do Wordess “Complexo de Cassandra”. 
* Bloínquês
* Novo selinhos: Selos do Epifania (mais tarde será atualizado)