
“Atenção senhores passageiros, tenham todos uma ótima viagem”
A previsão do tempo revelava que a madrugada seria chuvosa e com isso, consideravelmente preocupada, a senhora vestida de um linho elegante tentara, constantemente, manter-se lúcida às preocupações e anseios durante sua viagem. Decerto, o anseio que a consumia aumentara por sua solidão em seu assento. Seus olhos cansados procuravam algum refúgio em outros olhos, mas sua óptica apenas encontrara multidões desconcentradas e alheias, observando ao relento através da redonda janela. Lembrara por um vago instante o bilhete que encontrara da filha na estante da sala de jantar, uma breve despedida, uma despedida com uma dolorosa ida.
De explicações necessitara para viver, desejara está ciente dos motivos exatos da ida de sua filha. Não aceitara que a mesma, sua filha, recusasse ser sua semelhante. Por que apenas palavras escritas invés de um último abraço? Um grande quebra cabeça era atordoado em sua mente e peça importantes lhe faltara. Talvez sua sensibilidade estive aumentando com o avanço de sua idade, talvez precisasse palavras diretas para abrir seus olhos à realidade. Ainda repousava em seu assento. Ainda buscara olhares, no entanto, acho-os. Os olhos da aeromoça rondavam pelo corredor à medida que andara no centro da passagem. Atreveu a pronunciar um pedido, a aeromoça assentiu. Seus olhos pareciam mais nervosos; suas mãos sofriam de hiperhidrose palmar – excesso de suor nas mãos; e sua boca seca a desconcentrava ainda mais. Olhou para os lados e agora via rostos, mas eram rostos diferentes. Na verdade ela se vira neles. Deveras o medo tomou-a. Gritou com um grande desespero, não aceitara ser semelhante às demais.
Objetivo. Vicio. Ela era apenas uma só. Gritava com desprezo para as outras. Suas semelhanças para com elas eram tremendas. Distorcia cada vez mais sua voz, não suportava que mãos iguais as suas ordenassem seu equilíbrio emocional. Algumas delas riam, algumas delas choravam – essas ainda eram de colo. Odiava tudo aquilo, odiava ser odiada por si. Correu pelo corredor a procura de uma saída do tormento e, sem perceber, um bilhete amassado cairia do seu bolso – aconchegou-se entre as últimas cadeiras, encolheu suas pernas e trouxe seus joelhos perto da face. Lágrimas caíram do seu rosto e viu pela prateleira de prata um rosto mais jovem. Sentiu seus cabelos caírem macios sobre os seus ombros e sua pele retroceder ao tempo. Sorriu. Ergueu-se e um pouco de sensualidade demonstrara ao passar suas mãos por dentro do seu corpo - “senhores passageiros, tenham todos calma, a senhora da cadeira seiscentos e sessenta e seis tem um pequeno problema psicológico” - em suas mãos agora possuíam facas. Abaixou um pouco seu rosto e sorriu. “Sempre lembrem que eu sou a verdadeira.” Correu e como uma câmera lenta acertou aqueles rostos clonados, falsos e inúteis em sua percepção. Sua sensibilidade de audição aumentara quando escutara seu choro infantilizado ao longe. Tentou calá-la, mas inúmeras mãos a seguravam pelos pés, aquelas eram suas mãos.
Percebeu que pessoas choravam, não acreditava que essas pessoas teriam realmente uma auto-estima considerável para agüentar a Califórnia, pessoas essas que seriam ela. Lembrou da filha e não aguardou o grito histérico que a sufocava. Lançou as facas sem preocupações, uma delas acertara a poltrona de uma mãe chorando sobre perigo que filho ocorrera e a outra estancara entre olhos curiosos de uma mulher ao ler o bilhete perdido. Andou em passos desconcertantes pelo corredor, viu a aeromoça e apontou para mãe desamparada, continuou a andar e ouviu sua voz ao fundo chamar aos sussurros um reforço na descida. Encostou-se e decaiu ao chão. Não saberia que o microfone cairia consigo. “Calem a boca, já chamei a aeromoça, que tentou acalmar a senhora” Todos ouviram. Percebera que sua voz já não era mais jovem. E o bilhete que caíra das mãos da pobre mulher atingida por uma das facas, confessava o tormento: “Mãe, não somos iguais. Eu sou única e verdadeira, só eu posso ser eu.” Estava naquele avião em busca de uma resposta para com a filha, desejara muito avisá-la que ela, sim, seria a verdadeira.
*Algumas frases em itálico foram retiradas do Wordess “Complexo de Cassandra”.
* Bloínquês
* Novo selinhos: Selos do Epifania (mais tarde será atualizado)
Ariiiiiiiiii! Estava com saudade dos seus contos de terror. E esse não fica por menos, hein? Sua criatividade me fascina. Adorei! Tal mãe, tal filha. Essa mente assassina é hereditária. Sempre com contos ótimos e intensos. "Memórias" também ficou lindo, querida. E parabéns pelos selos, suuper merecidos. ^^
ResponderExcluirUau muito intenso esse texto!
ResponderExcluirE bem escrito!
Essa é a primeira vez que visito o blog, super lindo parabéns :)
Beijos,
Gabi
Mundo Platônico
http://gabiiem.blogspot.com/
Está ótimo, Arianne!
ResponderExcluirAdoro quando detalhas certas surpresinhas em teus textos (:
Beijos, e ótimo fim de semana, amor **
Gostei imenso! Nem imagino a dor da falta dessa filha a essa mãe. :)
ResponderExcluirUm texto longo, mas muito bom. :)
Ah os seus textos... Sempre tão bem escritos, e sempre tão repletos de emoções diversas.
ResponderExcluirUm traço forte que sempre percebo em sua escrita é a intensidade na emoção de cada personagem, e isso é tão marcante que me faz sempre enxergar por vários ângulos. Aquele conceito de "mocinho e vilão" foge quando me perco por aqui, porque isso se faz desnecessário, é tudo tão intenso e singular que esse estereótipo se torna irrelevante.
E sobre o tamanho do seu texto - sou meio suspeita a falar -, mas eu não me importaria de ler duas, três, quatrocentas páginas, porque quando o texto é bom, é bom, e então a quantidade se desfaz com o envolvimento, e a gente nem percebe a sua existência. :)
Beijo grande, Arih.
Oiii, texto maravilhoso!! Eu invejo vc Arianne, uma inveja do bem....parabéns pelo texto! Bjoo
ResponderExcluirolá, arianne...
ResponderExcluirna verdade toda vez que ganho selo eu não sei o que faço, até porque isso é muito avançado para mim...de qualquer forma, eu agradeço imensamente isso, fico contente pelo reconhecimento e principalmente por sua visita.
volte sempre.
um beijo
r.
Parbens pelo blog, gostei.
ResponderExcluirbeijos ;)
ORRA! Comecei a ler e não parava mais. Meu desespero pra saber o fim da história era de doer, haha. Esse texto é pra foder com o coração da velha.
ResponderExcluirRepito: sua forma de escrever me prende e fascina.
Essas coisas que nos reviram me beneficia: sou mais legal do avesso. E é bom!!! E é fundamental! E é vital! adoro não querer resistir.
ResponderExcluirQue domínio esse texto.
BeijooO*
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSou fascinada por estórias(veja bem estórias e não histórias) mais sombrias, elas me atraem de uma forma sem igual!
ResponderExcluirE essa sua então, me tirou o fôlego!
Boa sorte no BLQ!
Beijos;
Arianne, ficou muito interessante a narrativa, do inicio ao fim conseguiu me prender a leitura de uma forma degustadora. Pura emoção e como Jayanne disse "tirou o fôlego".
ResponderExcluirGosto de tudo que envolva a estrutura psíquica emocional do ser humano, é como se pudéssemos entrar por um instante neste universo um tanto desconhecido. E o comportamento daquela elegante senhora do início do texto me surpreendeu no desenrolar da narrativa.
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Ahh, e muito obrigada pelo selo *-*
Sempre converso com Gabriel, já é um grande amigo!
Beeijo anne, te vejo no msn! ^^
Escreves tão bem, querida!
ResponderExcluirÉ uma leitura que te prende e te deixa curiosa para terminar. Adorei ;)
:*