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5 de novembro de 2011

A falta de viver.






Céu acinzentado com o leve cheiro da chuva a cair – um beco – nele há uma presença humana sem expectativa de vida. Seus olhos não procuram mais nada, a não ser, um pequeno ponto na parede encardida. Não era menino de rua, suas vestes estavam sujas mais eram belas, não era mulher da vida, sua maquiagem e perfil não eram tão pesados. Era uma mulher. O semblante era triste. Outras pessoas ignoravam sua súplica de socorro, ela gritava por dentro, por alguma ajuda não respondida. Aquele seu sussurro questionava como teria ali chegado, o espírito estava quieto e suas forças esgotadas para um levante. Um encontro. Não, um achado. Um homem a notou e foi até seu encontro. Misterioso. Passos batidos pela pequena poça d’água. Sua presença revelava um estima da sabedoria, olhos negros que buscavam os perdidos. Não houve conversa, apenas um pedido – voltemos ao que chamamos de lar – nada respondeu. Sua paciência parecia se dissipar à medida que a chuva renovava seu ritual. Apenas aqueles dois seres, naquele beco sem saída, e o céu carregado de lágrimas não mais derramadas por aquela mulher, um sussurro de despedida. Permitiu que o homem fosse com suas palavras machucadas e um desespero submetido do seu passado. Permaneceu imóvel, angustiada. Tentou fechar seus olhos para conseguir o equilíbrio, mas estaria muito frágil, até refletir com os olhos fechados doía. Ainda olhava aquele ponto fixo na parede. O único – que para ela – não saíra do seu lado. Escutou o carro saindo em alta velocidade. Um choro. Finalmente se reerguia e voltava ao mundo exterior. Pessoas desconhecidas questionavam sua aparência – apenas aspecto. Caminhava sem vontade de viver e nos olhos a depressão amarga lhe acompanhava. Eu não sou ninguém, mas ainda quero viver. Pediu ajuda. Aquele corpo destruído agora possuía outras vestes, não eram de grife. Seus olhos estavam atentos à rotina da vida e vivos ao que se perdia ao redor. Numa tarde como aquela, céu acinzentado e tempo de frio, encontrou-se com aquele homem que transbordava enigmas em seus passos. Uma surpresa, encontro de olhares. Logo o desencontro de vidas.

- Quer café?

Estava viva. Forte. Não era mais a mesma e ele não mudaria para seguir sua vida - outra mulher ocupava seu espaço perdido – não choraria mais.  Tinha conseguido se libertar da prisão absoluta do seu ego: A falta de viver. Bloqueou seus pensamentos sobre as recordações do passado. A infelicidade que sentia seria o seu motivo para liberdade; seu espírito necessitava de um espaço maior em seu corpo. Não teria asas para voar e mostrar sua independência terna, mas queria ser como o vento e soprar livremente. Ser livre. A chuva ainda caía como daquela tarde.


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