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1 de janeiro de 2013

1 de janeiro



E os fogos explodiram. Você manteve aquele seu semblante de serenidade e me mostrou aquele seu sorriso, aquele enorme sorriso que fazia meu coração palpitar. O que vinha depois daquilo ainda estava em branco pra mim, você não foi uma escolha errada nem certa. Um meio termo que eu ainda ousava arriscar. Um destino que não dava pistas. Lembro que minha mão foi agarrada pela sua e corremos em meio à multidão a encontro da beira mar. O que você era pra mim? Um rapaz que preencheu na medida certa o meu lado cinza? Confesso que vivo no mundo da lua, a terra já não tem mais espaço pra mim. A sensação de estar apaixonada, eu admito, já me veio inúmeras vezes. A sensação de ser o início do para sempre, o início de todas aquelas cenas de amor, não se tornava clichê em todas às vezes que eu te via. Um amor que permanecia perto e o alcance tão distante. Como se todos os obstáculos da terra fossem invisíveis e os inimigos fossem nós mesmos. A sua piada sem graça sobre o meu sinal nas costas e suas frases soltas que sempre marcavam nossos encontros. “É, talvez... Tudo comece de novo”. Que ciclo era esse? De novo? De novo? De novo? Sentia que você estava e não estava e seria perigoso arriscar.

 Eu me questionava só te olhando e você nem percebia. Talvez você tivesse mais fôlego do que eu, talvez você visse o mundo de uma maneira completamente contrária de mim. Éramos uma aventura? O que era eu ali? Sentia certa dependência de que todos os meus dias fossem contigo e ao mesmo que você notasse minha liberdade – mas a questão era que eu não me permitia ficar longe. E, mesmo pensando em mil possibilidades, eu torcia para que você não fosse leitor de mentes. Você estaria perdido. O labirinto sem saída era apenas meu e não queria te por lá. Sentamos na areia da praia e conversamos sobre tudo, menos sobre nós. Conversamos sobre o nosso amigo que exagerou na bebida, rimos sobre a indecisão de outro e comentamos sobre a energia positiva daquele novo início de ano. Você entrelaçou sua mão na minha e apertou com força, como aquelas cenas dos livros americanos. Preferia que fosse um clássico francês. Depois das dores, a cura.

Mas, apesar daquele primeiro dia do ano passar tão rápido, ainda manteve você aqui. A sua roupa xadrez, tênis desbotado e o abraço apertado. A questão é que era colorido, o ano tinha começado assim, e ainda não tinha equilibrado. A sua expressão com falta de ar depois de um beijo, seu perfume de marca desconhecida e novamente declarado tudo num abraço – tudo isso me fazia questionar o que era nós. Sob a visão do mundo as nossas vidas eram linhas que algumas vezes se cruzavam, eram mitos em extinção, eram segredos cansados de serem revelados – era um atributo cheio de clichês. E, mesmo sabendo que você iria embora ao raiar do sol, eu lembro que prometi algo. Jogados na areia sem nenhuma intenção de sair e você com aquele seu papinho que sempre me ganhava. Acho que era a sua maneira de falar que me tirava do sério, um pouco soberbo cara-a-cara e entregue num sorriso. O que você queria de mim? Tenho a leve impressão que eu era tudo o que você queria e ao mesmo tempo eu era uma armadilha mortal. Colocando em situações contrárias:  você era o meu quadro predileto, a minha música que me tirava desse mundo, uma arte que me excitava.

O mundo é louco, eu sei. Te deixei primeiro e fui. Com você ficaram minhas expectativas, minhas loucuras e um amor sob nenhuma medida. A minha dúvida não é você e nem ‘se’. Não existe nenhuma dúvida sobre o que eu quero ou que você quer, a única coisa que hoje percebo é que apenas foi uma virada de ano fora do comum. Talvez você esteja numa dessas janelas de ônibus relembrando (sob o seu ponto de vista) sobre nós. Sobre o que deixamos de fazer e contar. Sou uma verdadeira nostalgia e com mundos paralelos. A praia hoje está mais calma e nem parece que ontem foi primeiro de janeiro. 


@ariannebarromeu