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28 de fevereiro de 2013

O nome dela é Júlia




     O cheiro dela sempre estava em mim. Eu, deitado naquela minha rede barata na varanda, escutei suas batidas na porta. Como sabia que era ela? É porque ela batia sem espaço de tempo, como se estivesse fugindo da morte e ali era a salvação. Fui montando o meu sorriso que era dela e chamei de meu dengo. Encaixei meus dedos nos dela e a puxei ao som de Cícero.  Não, isso não acontecia todos os dias e nem sempre meu humor estava naquela medida, mas esqueci de mim um pouquinho e brinquei com ela. Dancei com ela durante alguns segundos: aqueles seus olhos fechados, corpo leve e sorriso nascendo. Ainda não disse o nome dela, não foi? O nome dela é Júlia. Júlia de 23 anos, ainda voava como criança e tinha um dom de pintar um quadro mais louco que o outro. Finalmente ela ficou sem fôlego e correu para cozinha. Escutei da sala a geladeira se abrindo e a água sendo colocada num dos copos americanos.

    Essa menina tinha lá seus problemas e queria esconder de todo mundo. Sempre tinha vontade de jogar tudo pro alto e viver a maior aventura da sua vida: comprar um trailer e viajar o mundo. Dizia que não fazia isso porque gostava da mordomia de acordar cedo e ter pão quentinho na padaria, do seu banheiro, do seu quarto tão bagunçado e cheio de livros ao chão. E da garantia que gastaria suas economias no banco com pequenas viagens e perfumes. Ela ama perfumes. "Vem cá", chamei com jeitinho e ela deitou-se ao meu lado. Ela não quis falar sobre os seus problemas daquela tarde, só queria ficar perto de mim e se sentir melhor. Senti vontade de perguntar o porquê d'eu ser seu remédio, mas ela ficaria ofendida, ela fica ofendida por pequenas coisas e me contentei apenas com o seu silêncio. 

    Começou a falar do vizinho que não respeitava as paredes finas que dividiam seu apartamento do dele e que ele passava a madrugada toda assistindo filme pornô, e ela sabia disso porque ele se sentia dentro do filme e interpretava gemidos alto e feio. Alto e feio, ela enfatizou. Dei aquela risada que eu sabia que ela gostava, mas que eu dei porque realmente tinha sido engraçado e não conseguia esconder isso dela. Conheci Júlia na biblioteca. Pensou num ambiente de paz? Mas foi ao contrário, tudo era ao contrário com ela. Discutia com um cara porque ele não concordava em ceder o livro que, por ela, o tinha encontrado primeiro. Eu fui o intercessor da confusão porque o livro estava reservado pra mim.

    Deixando essa história de como a conheci de lado e se focando nos problemas que Júlia passara naquela tarde, eu não sei o que dizer. Como eu disse, ela tinha lá seus problemas e muitos deles envolviam conflitos com ela própria. Um dia queria ao cinema, andar por aí, conversar até altas horas. Em outro dia queria ficar trancada em casa, tocar o seu piano e cantar alto enquanto pintava. Júlia era uma das aquelas mulheres que ainda estava tentando se encontrar e ficava com medo quando alguém chegava muito perto de encontrá-la primeiro. Tinha receio de estar fazendo tudo errado e sofrer as consequências em público. Ela não tinha medo de viver, afinal, nela tinha uma alma de aventura. Ela só tinha medo de não ser. Ela se autodefiniu um experimento - tinha uma melodia de paz, mas que a tradução era de dor.

Na realidade, Júlia tinha sempre medo de amar, não importa o que fosse, ela tinha medo disso. Suas histórias de amores errados, perdidos e ainda doídos eram relatos que ela me contava de relance, quando tinha vontade. Então, no final disso tudo, era bom saber que de alguma maneira eu era o seu remédio. Eu só deveria ter cuidado para não ficar fora da validade.

Amar também é um risco.