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20 de abril de 2013

Olá, Marvin


Olá, Marvin
Hoje decidi colocar aquela música que você me apresentou e escrever esse texto para explicar toda a minha neurose. Não é um pedido de desculpas. Eu te contei, não te contei em detalhes, mas contei que eu era um pouco difícil e que minha mudança de humor é durante as 24 horas do dia. Já tentei tratar isso. Você até me indicou um analista e estou indo todas as quintas-feiras pontualmente.  Mas isso, simplesmente, está em mim como sua chatice em não se conformar com uma resposta e catucar a pessoa até que ela chegue a um limite de estresse e você dê aquela sua risada estranha. Sempre achei que nossa amizade já estava pré-destinada, você nunca entendeu (ou fingia não entender) quando eu explicava os fatos que me levavam a pensar dessa maneira. A verdade é que aprendi algumas coisas com você e tive coragem para outras. 

Você me conheceu primeiro. Não, na verdade, eu que lhe conheci primeiro. Contar essa nossa história parece tão roteiro de filme que eu estou escrevendo aqui e torcendo para que no futuro você lembre disso e escreva nosso roteiro. Não lembro o ano, não lembra a data nem a hora, só lembro que entrei na biblioteca em busca de um livro do Bukowski. Só tinha dois na prateleira e decidir pegar aquele que mudaria minha vida de alguma maneira (sim, eu sou disso, no dia eu fechei olhos e peguei na sorte). Na sorte, folhei rapidamente as páginas e não notei que o seu site estava escrito no verso da capa. Li um, dois, cinco... Li todos os contos na minha volta pra casa. E, quando eu não conseguia mais rir de tanta dor na barriga, resolvi olhar aqueles detalhes da capa que todo livro tem. Pronto, foi ali que tudo começou.


Visitei seu site, comentei e deixei de lado. Só descobri que você era o meu conterrâneo. Eram tantos blogs na época que eu nem lembrava mais que eu tinha vistado aquele seu site/ por causa daquele livro/ por causa daquela sorte que eu tive naquele dia que eu não sei qual. Completamente absurdo, não? Acho que você já percebeu que esse texto é pra você e não estou colocando nenhum teor poético aqui. É porque, para mim, relembrar como tudo começou é uma chance de fazer valer a pena no presente. 

Pronto. Eu não lembrava mais de você. Foi quando eu cheguei ao ponto de esquecer tudo isso e receber uma mensagem sua perguntando se poderíamos trocar msn's e bater um papo mais direto. Naquele dia eu pensei que fosse algum leitor do blog querendo me conhecer. Eu te perguntei o porquê e você me respondeu que acreditava que o papo seria legal, afinal, você curtia os meus textos. Fiquei feliz, fiquei empolgada e depois medo. Pensei que você fosse um pedófilo e queria vender meus órgãos, mas essa ideia evaporou ao longo dos dias de conversas. Deixei de escrever muita coisa nessa carta, não porque eu quis, mas há coisas que podem ser esclarecidas de outras formas. 

Durante um período de 6 a 7 meses, saímos para vários lugares. Fomos ao cinema mais lindo do Recife, fomos ao Marco-Zero, você me apresentou a feirinha mais cara de Pernambuco, fomos a um luau, fomos diversas vezes a livraria, batemos perna em Recife, te apresentei aos meus amigos. Se eu fosse pedir desculpas por alguma coisa, seria por eu não saber lidar com os meus sentimentos. Diversas vezes pensei estar apaixonada por você, mas não era nada disso. É que eu não estava acostumada a receber tanto afeto da parte de alguém. Receber tanta atenção. Eu te contei a minha vergonha e segredo. Eu confiei e confio em você. Eu pensei que você me deixaria de lado quando começasse a namorar e por isso me afastei, quis poupar a dor. Esse meu egoísmo é perverso e estou tentando lidar com tudo isso. Com tudo que me cerca. Só entenda que sou de poucas palavras e que nem sempre o meu silêncio é ambíguo. Tem vezes que é silêncio mesmo e só quero captar as coisas ao meu redor.

Minhas mudanças de humor fazem parte de mim. Minhas doideiras também. Quero terminar essa carta descrevendo quando nos vimos pela primeira vez. Eu, num dos corredores da biblioteca escolhendo algum livro não sei de quê à espera de um cara que nunca tinha visto na vida. Você, um cara super alto, magro, meio calvo e com um  bigodinho que já me fez rir bastante. Eu, com umas roupas estranhas. Você, com uma blusa xadrez e uma bermuda que eu esqueci a cor. Eu e você no meio da biblioteca e um abraço que determinou o começo de uma forte amizade. Amizade essa que eu não quero que termine. Estou pondo os pratos limpos na mesa. 

Eu não gosto de falar ou conversar algo mais sério cara-a-cara. Não é covardia, é minha personalidade. Você mesmo me disse que eu não ficaria livre de você por muito tempo. E antes que eu comece a cantar aquela musiquinha de Jesus só para te estressar, conclua essa carta como um pedido de desculpas, mesmo não sendo uma, Marvin. Afinal, eu sou livre. Não é, mago? 


                                                                                                                                 (Arianne Barromeü)