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24 de maio de 2013

30days: 24. O meu amigo imaginário

Imagine uma garota de oito anos de idade pedalando o mais rápido possível por uma estrada de barro e que, apenas por três longos segundos, avistasse um garoto sentado abaixo daquela árvore do final da rua. Ela não para de pedalar, segue o seu destino, mas não deixa de reparar naqueles olhos baixos e, aparentemente, tristes. O seu aniversário de nove anos estava chegando e esse detalhe do garoto não seria tão importante se ela não o visse na sua festa de aniversário: ele está distante das pessoas e sentando. Outra vez, eu digo, seus olhos estavam expressivamente tristes. A garota foi até lá para tirar essa sua curiosidade mórbida: quem era ele? Ao sentar-se ao seu lado e perguntar o nome dele, ela recebera apenas uma troca de olhares sem nenhum significado. Depois de um tempo sem resposta, a moça desistiu e resolveu voltar a festa para sentir novamente aquela atmosfera de alegria que as pessoas passavam. 


Quase em outra dimensão, a garota que agora tinha nove anos abriu os braços no meio daquela sala. Disse que aquele dia era o mais feliz de toda vida e que nem os brigadeiros superavam a delícia do dia. Mas essa garota, senhores, ainda não percebia que algumas pessoas ela enxergava naquela sala e outras apenas ela enxergava. Naquele momento poderia ser citado várias teorias, escolhi algumas para vocês: 1) A garota tinha uma mente tão fértil que cabia outro mundo dentro dela e que ninguém se importava. 2) Ela tinha uma conexão tão forte entre as coisas tão delicadas que algumas pessoas poderiam classificá-las como bruxaria e que um exorcismo poderia fazer bem. 3) Ela vivia entre dois mundos e ainda pensava que era apenas um. O fato, senhores, é que ela acreditava em todas essas teorias e não se importava com o que aconteceria. Contudo, o fato dela acreditar não implica dela saber que existia. É como ela acreditar em tudo o que sua mãe lhe dizia, mas não saber se de fato existe. 

Eram dez e meia da manhã quando sua mãe disse que tudo bem, ela poderia dar mais uma volta no quarteirão. Estava pedalando no mesmo ritmo daquele dia que encontrou aquele garoto como olhos baixos e tristes - aquela árvore agora estava sozinha e resolveu espiar um pouco, mesmo não tendo a certeza que encontraria alguma coisa. Se assustou quando viu o nome dela gravado naquela árvore. "Pensei que você não viria" disse aquele mesmo garoto que não abrira a boca no seu aniversário. "Você me assustou" olhos arregalados. "Me desculpe, você quer conversar?" e ela respondeu que sim. Em exatamente trinta minutos ela tinha dito tudo sobre sua vida - sua vida era cheio de atividade de casa, treinos de ballet e que adorava fazer novos amigos.

"Eu posso ser o seu amigo?" "Claro! Quer conhecer minha mãe?" "Ela não gostaria muito de mim" "Por quê?" "Por que nem todo mundo pode me ver e isso assusta" "Mas você não me assusta" "Eu te assustei de início"  "Por que você não falou comigo na festa?" "Não queria que perguntassem quem eu era" "Por que você tava com um olhar tão triste?" "Eu era sua parte esquecida" "Não entendo" "O que você ver quando se olha no espelho?" "Eu me vejo" "O que você viu quando se viu ao espelho hoje de manhã?" "Eu me vi" "Tem certeza?" "Sim, mas eu quis chorar e mamãe perguntou o porquê" "E você sabia o por quê?" "Eu não tenho amigos" "Eu posso ser o seu amigo?" "Eu já te disse que sim" "Você não me parece tão certa" "Eu estou certa" "Eu vou te levar um presente hoje" "Qual presente?" "Quando voltar para sua casa se olha no espelho de novo" "Por quê?" "Não vai te custar nada" "Tá bom" "Quer ouvir uma piada?" "Não gosto de piadas..." "Ok" "Ok".

Então, meus caros senhores, ela correu para o espelho da sala e procurou alguma coisa. Procurou tanto que se cansou. Talvez eu esteja procurando errado, pensou. Parou de frente e se olhou dentro do próprio espelho. Se olhando pelo espelho tentou se olhar dentro do reflexo que lhe via. Sorriu ao ver que não estava sozinha. "Eu não sabia que sua casa era dentro do espelho" "Eu não moro aqui" "Não?" "Não, eu moro dentro de você" "Mas isso não pode. Dentro de mim já tem dono que sou eu também, sou dona de dentro de mim e não cabe você". "A medida que você for crescendo, eu crescerei. A medida que você não tiver mais respostas tão boas, eu também não terei. E quando você não se reconhecer dentro do espelho e pensar que é outra pessoa, saberá que aquilo ali ainda é você."

"Qual é o seu nome?" "Por que não me dar um?" 
"Ok, Frederico que não tem casa e que quer roubar a minha."
"Vamos conversar todas as noites?" "Sim, até você acreditar".

Depois de algumas noites as pessoas se esquecem do que falam e ela deixou algumas noites passarem também.




30 dias de escrita, dia 24 - "Escreva algo infantil baseado em experiências da sua infância"