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16 de maio de 2013

30days: 16. Milimetricamente


Milimetricamente. Mi-li-me-tri-ca-men-te. Eu a observava com esse exagero que só os curiosos tinham para descobrirem algo. Ela sentara do meu lado e seu olhar, mesmo não encontrando o meu, me levava a outros lugares que eu sentia uma extrema ponta aguda invadir minha coluna vertebral e que me deixara inerte para seguir seus breves sinais. Lá fora chovia, o trânsito estava parado e ela tirava da sua bolsa um mp3 que não estava mais nas lojas. Primeiro play. Ouvi a batida da bateria e indiquei aquela primeira música, sorri por dentro, ela sorriu por fora. Observei que ela deixou escapar um minusculo sorriso e balançou a cabeça em sinal que gostara daquele ritmo. Interessante, pensei. Aquela música também estava na minha playlist. 

Olhei para os carros lá de fora e, pelo espelho do ônibus, a vi pedi a bolsa do rapaz que estava pé ao lado dela. Cabisbaixo. Ela poderia me oferecer um pedaço dessa barra de chocolate que ela acabara de abrir. Qual seria o nome dela? Ela não combinara com Ana. Passou a mão entre os seus cabelos. Deixou uma mecha  atrás da sua olheira direita - unhas sem esmalte, os brinquinhos pareciam uma bolinha brilhante e uma pulseira rosa sem nome - seu perfume era de uma grife de perfumes importados. Olhou em direção a janela, talvez quisesse observar um pouco o tempo lá de fora, desvivei meu olhar para o teto que, naquele momento (e em qualquer outro) não teria nada de interessante para admirar. Senti uma leve ardência subir no meu rosto, era vergonha, ela olhara pra mim por apenas alguns segundos e logo voltara a escolher outra música. Meu coração palpitou como se eu estivesse pela primeira vez em cima de algum palco e todos os olhassem para mim à espera de uma grande apresentação.

Engoli seco. Será que ela olharia pra mim quando eu olhasse novamente para ela? Olhei para o espelho. Mas que ironia. O rapaz pedira a bolsa e agradecera a gentileza  daquela menina que eu observava com extrema precisão. Aquele seu casaco de lã vermelha e sua bolsa jeans me chamavam atenção. Olhos sonhadores (eram castanhos), cabelo da branca de neve (eram mais negros que aquele céu escuro) e aquela pele tão linda que teria medo de tocar. Trocou de música. Era uma da trilha do filme Submarine. Percebi que ela iria olhar pra mim e no mesmo momento olhei para os meus sapatos. Eles poderiam ser interessantes. E, devagar, olhei para aquela janela pela terceira vez e, dessa vez, ela tinha o olhar fixado para a mesma direção.

Meus pensamentos deram um nó e foi como se uma única gota de alguma coisa caísse numa sala em pleno silêncio. Tum. Tum. Ela não tirava o olhar. Tum. Ela estava olhando para mim através daquela janela. O reflexo dela estava lá. Seus lábios formaram um sorriso sutil. Tum. Meus pensamentos ainda estavam eninhados. Ela estava sorrindo para mim e aquele sorriso parecia ter sido milimetricamente calculado - não demonstrava exagero nem simplicidade demais. Passou novamente a mão nos cabelos. O ônibus andou. Meu coração recebeu o estalo para voltar ao normal. Não conseguia mais ouvir a música que ela escutara, apenas um saudação que dizia que se chamara Jordana. Ela desceu na 5ª parada da avenida Guararapes, a minha parada.


30 dias de escrita, dia 16. (escreva um romance)