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15 de dezembro de 2010

Desabafo #I

Já presenciei muitas gerações, Terra. Já quis sonhos impossíveis.  E você mesma se encarregou de destruí-los... O quê? Formos nós? Não, senhora Milenar. Você tinha uma alternativa, mas adiou para inúmeros anos e cá estamos. Neste mal do século. Na minha geração um beijo era sinal de um casal de apaixonados e era um beijo diferente. Trevo-me a dizer um beijo mais saboroso. Ah, os compositores. Eles sim sabiam transmitir a plenitude de uma música. As notas musicais eram compostas de acordo com o meu momento, elas faziam-me libertar da escuridão decorrente. Queria que eles sentissem o que eu sentir. 

Alguns ainda perseveram na conquista dos ouvintes deste século – alguns nasceram na adolescência da minha geração - tenho orgulho deles. Mas ainda não fazem como antes. É preciso muitas das vezes pegar um tiquinho de inspiração lá trás. Não precisa anotar isso não, anote apenas o necessário. Como se diz hoje faz o resumão e manda aí, ó. Antes tinha uma disputa avassaladora na conquista dos prêmios das academias e outros célebres. Sim, eu me lembro. Ah, como eu lembro bem. Eu me lembro é de tudo. Mas também me lembro da limitação dos telespectadores, repudiaram de muitos deles. Vamos fazer um tricô. Começo com um pouco da linha enrolada no meu dedo indicador e seguro com leveza a agulha na minha destra. No começo sempre é difícil desenrolar, mas sempre conseguimos. Fora difícil para os jesuítas catequizar nossos índios, ah, como foi. Mas continuaram tricotando. 

 Vamos tentar moldar um pouco nosso tricô! Deixe isso com o Arcadismo e suas sínteses ou com a perfeição poética do Parnasianismo? Não não... Prefiro prosseguir com o romantismo. Deve deixar um pouco mais belo meu trabalho. Beleza? A vida nem sempre é bela. vamos tricotá a realidade. Que tal seguir o visual de Nietzsche ou Marx? Muito brusca? E que tal um pouco pensadora e com definições sobre a vida? Acho que Sócrates não responderia minha pergunta, ele me perguntaria outra coisa. Vamos fazer a vida um pouco mais solta e do jeito que ela realmente é. Obrigada modernistas. Meu tricô está ficando moderno. Ah, gerações vividas. Cada um com seu encanto e desencantado. Terra, estou com medo do acabamento do meu tricô. Sabe por quê? Tenho do mal desse século. Não sei como ele acabará. Vou deixar assim, inacabado.