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16 de janeiro de 2011

A cega

A janela estava aberta, mas não poderia contemplar seu quadro natural. Suas mãos eram as duplas de guias e orientavam-na com intensidade ao auxílio dos seus toques ao decorrer do caminho. Sentia-se às vezes desprezada pela frieza de alguns seres inanimados, ou pelo afastamento aconchegado de uma conversa na praça. O recanto primordial do seu afastamento secreto de todos os olhos vivos seria realizado na sua árvore sem visão. As lembranças das palavras paternais ainda seriam lúcidas em sua mente, ele convencerá sua mia, de que não estaria sozinha nesse mundo perronho, e que aquela árvore sofrera do mesmo mal que a vida lhe tirara – a visão. Os humanos decidiram cortar-lhe a visão do grande céu. Mãos alvas, talvez de porcelana, desdenhavam com seus minúsculos dedos aquela crosta incerta do vegetal. Uma comunicação desconhecida podia-se sentir, por que ouvir apenas elas ouvia ou fingiam intraduzir. Olhos mundanos se desapareciam em meio à multidão do verde florestal, e sua intimidade junto com a entrega dos mais temidos dos sentimentos, desabrochava-se em meio aquele silêncio importuno. Possivelmente, a pequena moça dos cabelos mais claros que margarida se dispusera a perdoar todos os imperceptíveis in-agradecimentos que a multidão insana a cometia. 
Talvez ela não fosse tão incapaz de enxergar aquilo avante, mas fosse realmente incapaz de entender por que é aquilo que o homem vê. Suas meditações especuladas ao extremo da inércia e a incapacidade de expressar-se pelos seus mais íntimos sentimentos, se voltou a demonstrar-se em toques volúveis e gracejados dedos estreitos e fraquinhos de expressão. Desejou não sentir os passos preocupantes e interessados a não serem notados – cochichou à sua amiguinha – e propôs o silêncio. A sombra mental demonstrava o sentimento de vergonha, talvez por despertar a atenção maior para os olhos quietos da ceguinha. Questionou-lhe sua presença ali, sua voz incerta demonstrava que nenhuma resposta caber-se-ia a situação. Desprendendo-se do seu mundo mútuo com a árvore, suas mãos flutuavam pelo ar – quietos e retos – enquanto dar-se-ia passos a sua frente, seus pés apenas rastejavam poucos centrípetos em sua maior estrada e galhos secos ainda atreviam-se a gritar seus martírios. Mãos experientes em toques e sentimentos prosseguiram em sua identificação ao sujeito estrangeiro, sentiu formas onduladas em grandes proporções, sentiu que onde deveria – ou pelo menos – abrigar fios de cabelos, não encontrava. Olhos entrelaçados, e uma cor vivida de sem vida não demonstrava o desespero típico ou as vozes tremulas das mãos horrorizadas com a expressão sentida. Ela sorriu, e acrescentou-lhe o convite a sentar-se aos pés da cegueira do céu. Perguntas e inúmeras perguntavas nasciam entre eles ali. Necessitava conhecer o mundo sem luz com janelas abertas, ou desvendar a cor predileta dos seus olhos ressecados e inertes – almejava a resposta da forma de sua solidão, sonhava na resposta de sentir o que seus dedos sentiram. 

- Você chora? – uma das aleatórias perguntas inusitadas do rapaz.
- Em qual sentido? – retrucou a moça.
- De tristeza, alegria, felicidade, de perda! Seus olhos são impedidos de ver o mundo, são impedidos também de senti-lo?
- Sentimos com o corpo e se enganamos com os olhos.
- Você não é cega, talvez se passe por uma, mas cega não és. Posso sentir seu olhar – impiedosamente – sufocar o meu.

 Então os olhos mortos que ainda seguiam como olhos vivos, sentiram o espírito do reconhecimento ou mesmo da necessidade de acreditar-se neles. Mesmo que tudo ainda não passasse de uma sensação.