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3 de janeiro de 2011

Jeffrey, ao som de Beethoven.

(Cenas do filme - O Perfume)

       Ao som de Ludwig Van Beethoven  com sua primeira sinfonia – os olhos de Jeffrey percorriam agitados em frente as suas obras primas. Suas mãos pecavam em imitar os movimentos sublimes do compositor, seu rosto parecia navegar em um intenso mar – com movimentos pesados a manuseava assustadoramente em pequenas rotas curvilíneas. Ele sorria do nada. Ele aplaudia para o nada. Ele agradecia para nada. Levantou-se e caminhou lentamente para sua platéia – obras primas – e admirou-as.  As observava como um grande admirador da sua própria arte. – Belíssimo! Belíssimo! – exclamava para si. Percorria com cuidado entre elas, não queria tocá-las naquele estado, para ele, elas estavam perfeitas ao público – Então se ouviu um sussurro ao longe.
Era quase indecifrável o que proferia a outra voz. Ele a olhou. E sinalizou silêncio para a pequena jovem. Ela parecia amedrontada, e mesmo que tentasse se auto controlar, perdeu os sentidos e seu corpo tomava-a para escapar dali.

        Seus olhos percorreram rapidamente todo aquele cenário do grande autor, ela o temia. Via seus semelhantes imobilizados, vitimas de experiências horrorosas e amedrontador para qualquer humano. Seus olhos não conseguiam achar um vestígio de luz natural, seus pés estavam incapazes de fazê-la percorrer naquele quarto. Seu vestido amarrotado se estendia com repugnâncias e uma substância árdua, ela estava cansada, apoiou-se no chão, mas escorreu-se. Sua respiração se tornava cada vez mais ofegante – olhou para suas mãos a procura da resposta de sua pequena queda e se aterrorizou. Elas estavam avermelhadas e minúsculos pedaços negros cobriam sua alva mão branca. Jeffrey parecia não se importar com a tentativa de fuga da moça, ele parecia estender sua atenção para sua platéia imóvel, sem vida, estendidas naquele vão.

        Demonstrava seu nítido interesse sobre elas. Mas então ela gritou. Tampou com suas sujas mãos sua audição e relembrou as apavorantes cenas que a pouco tinham começado. Ele a repreendeu com seu olhar. Ela parecia o ponto cego em meio a sua obra. Então, na memória de Jeffrey, surgiam fragmentos desconcertantes que se estendiam em sua mente, mãos fortes e violentas que o arrancará de sua prematura infância, xingamentos alheios disparados entre seus genitores e agressões sem respostas em seu corpo – sim, ele relembrava. O grito da moça despertou em sua memória o seu próprio grito de horror que tivera passado. Mas, ele não entendia o seu grito – você faz parte da minha obra – pensava. Para ele, ela deveria sentir-se orgulhosa de testemunhar seus belos corpos artísticos sem vida e cobertos com seus próprios vinhos. Despenhava com cautela os mecanismos que davam à vida de seus pequenos zumbis, conectava intrusamente seus corpos uns aos outros, como forma de dá vida a seres inanimados e ordena-los a seguir sua cena teatral. A carnificina para ele teria outro nome, e a moça não explicaria o real sentido da palavra.

        Seus cabelos estavam úmidos, sua boca estava seca. Mãos cansadas e pés entregues caracterizava a moça. Ela se rastejava pelas paredes negras e sujas na tentativa de uma saída. Suas mãos sentiam a escoria maldita sobre as paredes, mas aquilo não a importava mais. Achou uma pequena depressão. É a saída, pensou. – É bom experimentar coisas novas, mocinha – sussurrou o inha. Seus cabelos foram às cordas para sua ida ao centro do espetáculo. Sua pele se destacava entre os demais. Eles estavam no destaque de pequenos vermes – irônico – esta seria a tradução do vermelho, da cor do sangue. – Dê o grito do seu espetáculo! DÊ! – ordenou. Sirenes policiais eram ouvidas ao fundo.
- Por... Por quê? – apenas perguntou. – Por que sou um artista. – golpeou-a.